Exclusivo! Luigi Rotunno , presidente da ABR , fala sobre a influência do Airbnb e do aluguel de temporada nos destinos

Luigi Rotunno, presidente da ABR (Divulgação/La Torre)

Uma pesquisa realizada pelo MercadoLivre Classificados, ano passado, afirma que 40% dos turistas estão dispostos a pagar entre R$ 100 a 200 reais por noite em hospedagens de temporada. O crescimento da demanda deste tipo de hospedagem está na contramão da crise, fazendo com que centenas de brasileiros abram “suas portas” para pessoas completamente desconhecidas. Segundo dados do Airbnb, quem já se aventurou a alugar por temporada de fato sabe que o retorno financeiro pode ir além de apenas uma renda extra.

Conversamos com Luigi Rotunno, presidente da ABR, sobre esse crescimento e como os destinos estão reagindo frente a essa realidade.

Luigi – Nós estamos liderando uma ação nacional, como presidente da ABR, junto com a ABIH, FOB, FBHA, com o próprio Ministro do Turismo e com a Receita Federal em cima desse assunto do aluguel de temporada.  Não falo muito sobre Airbnb, apesar de ter feito um estudo muito completo, até hoje é um dos estudos mais completos já feitos, porque levanta muito a questão internacional. Mas, o próprio Airbnb já comprou várias submarcas (OASIS, Luxury Home, etc..), não é um único produto, não é só Airbnb, mas uma série de outras empresas. A própria rede Accor está comprando outros canais de aluguéis de temporadas. Então, virou um mercado gigantesco de alugueis de moradias para férias que foge totalmente da legislação turística e, especialmente a arrecadação de impostos. Hoje, um destino como Porto Seguro (BA), que tem um grande índice de condomínios, o número de leitos distribuídos em condomínios que alcança 40% da capacidade da cidade, nós temos cerda de 50 mil leitos, desses 50 mil quase 20 mil são de condomínios.  A primeira quinzena de janeiro/17 os condomínios tiveram uma taxa de ocupação maior do que dos próprios hotéis. Quando a gente analisa, obviamente que o preço é um elemento importante, não é uma questão unicamente dos apartamentos, realmente muitas vezes eles são mais novos recém-inaugurados, oferecem mais espaços. Mas, o preço ele é um balizador desse mercado, isso não tenha dúvida de que ele é. Porque o preço é mais competitivo? – Não pagam impostos, não pagam ISS encima da diária e, além disso, foge completamente a toda uma normativa de vigilância sanitária, de meio ambiente, de Cadastur, de alvaraz de funcionamento que são custos administrativos extremamente elevados, tanto quanto o ISS e não é repassado encima dessa diária. Realmente, é uma concorrência totalmente desleal no confronto dos hotéis e precisa de ações, especialmente municipais, rápidas para reverter esse quadro que levou a hotelaria brasileira a um nível de agonia gigantesco.

O reflexo nas Cidades

Luigi Porto Seguro é sem dúvida uma das cidades vítimas desse novo mercado por ter muitos condomínios, mas, vale citar Salvador (BA). Salvador é a capital que mais sofre com esse mercado, junto com isso Rio de Janeiro, em seguida São Paulo e depois cidades menores.

O mercado do Aluguel de Temporada

Luigi – O aluguel de temporada trabalha em várias brechas da legislação internacional, que tem dificuldade em determinar a partir de quando você vira uma atividade comercial, a partir de quantos dias, então, dependendo dos países, se você aluga sua casa trinta ,sessenta ou noventa dias vira uma atividade comercial empresarial. Antes disso é só um aluguel de temporada, então, tem uma série de brechas. O que falsa é uma política de economia compartilhada. Hoje, o conceito de economia compartilhada até é justo, se você aluga um quarto da sua casa, lá de fato eu vou vivenciar uma experiencia porque o “João” alugou um quarto na casa dele que está ocioso, ele tem mais quartos e aluga um, eu como viajante vou vivenciar uma experiencia de economia compartilhada me hospedando na casa do “João” porque ele quer fazer esse negócio.  Isso eu respeito plenamente! Mas, a partir do momento que a gente aluga imóveis plenos já não é mais uma economia compartilhada. E a média de imóveis plenos dentro do Airbnb, porque eu conheço esse canal, no Brasil 67, 68% dos imóveis dentro desse canal são imóveis plenos, não são imóveis compartilhados. Tanto que hoje nós temos até imobiliárias anunciando nesses canais. Já não é mais uma iniciativa privada, é uma atividade comercial de fato. Salvador, é o cumulo, tem até hotéis anunciando nas plataformas de aluguel de temporada os quartos de hotéis. Loucura total! Então, esse mercado, entendo a necessidade de progresso, a necessidade de novas formas de negócios, mas, cada nova forma de negócio deve ser feita no pleno respeitos das leis brasileiras.

Ação das autoridades

Luigi – As autoridades não enxergam plenamente o problema, a questão é que é uma legislação de nível Municipal, Estadual e Federal. Então, claramente mesmo que o Governo Federal entenda o problema, ele não tem o poder de ação direto nos municípios. Os municípios muitas vezes os prefeitos não enxergam o impacto negativo na economia da cidade, porque eles veem um fluxo de turistas. Então, na frente do número de fluxo de passageiros eles estimam que a cidade está indo bem. Eu vi, por exemplo, uma pesquisa recente de um portal (skyscanner) que mostrava “Os cinco destinos em alta para o verão de 2017”e, colocam Porto Seguro no meio desses destinos em alta. Só que esse portal analisa o fluxo de carros de locadoras, de pesquisa aérea e de hotelaria, os três elementos em conjunto. Obviamente que o aluguel de temporada estimula a locação de carro e a passagem aérea. Não é mais um balizador de turismo! Para um prefeito municipal, ele fala “ o aeroporto nunca teve tanto desembarque, a locadora está alugando, então a cidade está indo bem! ”. Só que, o que movimentava a cidade sempre foi o trabalho da hotelaria, no divulgar o turismo, no procurar o turista. Se você mata a hotelaria, o dono do condomínio ele não faz um trabalho para alimentar a hotelaria, alimentar o turismo da cidade! Então, existe realmente um fator de números que enganam as próprias pesquisas dos municípios em achar que o movimento é bom. De fato ele não é, porque ele é um movimento desordenado. Um destino turístico precisa ter um mínimo de regras e, ele precisa avaliar a qualidade do viajante que vem no próprio destino, para poder ter um planejamento. E, hoje em Porto Seguro estamos sem planejamento nenhum, estamos com um mundo do turismo que está desandando em cima do qual é extremamente difícil uma empresa fazer um planejamento financeiro e etc…

A indústria do Turismo nos municípios – O Ministério do Turismo lançou uma pesquisa apontando o crescimento desse mercado de Aluguel de temporada. Porto Seguro, por exemplo, não tem uma outra indústria que não seja do turismo. E, não havendo uma política sobre as ações desse mercado que realmente afetas os hotéis, estão matando a “galinha dos ovos de ouro”?

Luigi – Sim, mas isso já está acontecendo! E, acredito que o município está mais ou menos sabendo, mas, não toma atitude. Existe uma falha de alguns hoteleiros, que graças a Deus estão mudando de ideia! Mas, que acham que os tempos de galinha dos ovos de ouro vão voltar. Só que eles não vão voltar! Não vão voltar sem que exista uma ação de fato, e existe um poder público que está meio que paralisado sem saber como fiscalizar, sem saber como tomar uma atitude frente a essa política, porque é uma política que ganhou a simpatia da população. É lá que é o grande problema do político, o político não toma atitudes que sejam contrarias a simpatia popular. E o Airbnb faz um trabalho de sedução do consumidor muito, muito forte. Eles têm um medo de se colocar contra o “progresso”, contra a satisfação popular. Mas, isso é preciso! Ter coragem para entender que ninguém é contra! Mas, um destino não sobrevive sem regras. O Airbnb não é a “Ubernização” dos hotéis, são duas coisas similares, mas bem distintas. Porque o Uber é de fato uma economia compartilhada. Eu estou entrando num carro que tem um proprietário, eu compartilho realmente um bem. E, existe um elemento de monitoramento de qualidade entre o motorista e o passageiro, constante, e o preço vai se balizar conforme o desgaste do veículo e tudo mais, o Uber hoje já não é mais barato que um táxi. No caso de Airbnb, não é. O apartamento não é compartilhado, e a fiscalização paradoxalmente é muito mais fácil fiscalizar automóvel do que imóveis. Eu acho que é extremamente importe acordar quanto a esse mercado paralelo, que se criou para os viajantes e que está desmontando completamente a cadeia produtiva do turismo. Porque Airbnb o aluguel de temporada não afeta só o hotel, o viajante Airbnb não usa um transfer, não compra passeios com o guia, ele não vai na agência de viagem, ele afeta a cadeia produtiva do turismo como um todo.

Ele desenvolve um turismo predatório para a região?

Luigi – Ele não é nem predatório, ele usa um caminho para viajar diferente. Ele não está errado, só precisa ser regulamentado e encaixado nas leis da região. Eu não tenho nada contra, quando era criança a gente não tinha dinheiro para ir para um hotel, levávamos a churrasqueira e o isopor e fazíamos churrasco na praia. Isso faz parte da liberdade do senso de viajar, já fui mochileiro e respeito todos os mochileiros. A questão é que, esse novo sistema desvia a inteira cadeia produtiva. E não na pequena quantidade de pessoas, ela é diretamente competitiva com a indústria do turismo. Para mim nenhum problema, se não querem cobrar o imposto dos alugueis de temporada baixa os impostos da hotelaria! A gente não pode competir com armas desiguais.   Estamos num período de crise, terceiro ano consecutivo de uma crise brasileira intensa. Aonde que os municípios com pouco recursos vão buscar recursos? Eles vão buscar em cima dos empresários. Um pensamento um pouco limitado, mas é o que eles fazem. Só que se eles querem fazer isso, devem preservar os empresários. Não dá para taxar mais os empresários e não proteger mais as condições econômicas do empresariado. E, hoje nós estamos sendo atacados por todos os lados, o político não garante a constitucionalidade das empresas do turismo liberalizando os alugueis de temporada, o exemplo de Porto Seguro vai além, é só ver os táxis de lotações, foram liberados milhares de táxis de lotação, que são piores que o Uber, aqui em Porto Seguro. E, do outro lado como é que você vai abrir uma empresa de táxi regularizada, pagamento seus impostos e seus alvaraz quando você consegue fugir da lei de forma legal e permitida? Esse é o grande problema.

Quais as ações dos hoteleiros frente a esse crescimento dos condomínios de alugueis, sendo que não podem mexer nas tarifas?

Luigi – Baixar a tarifa de Porto Seguro é algo impensável, em muitos hotéis dessa cidade não podemos nem falar de tarifa, o preço é tão baixo que em alguns lugares se hospedar em Porto Seguro é o mesmo de uma pizza . Isso é ridículo! E, explica o porquê que esses empreendimentos todos estão tendo dificuldades.  Eu diria que até novembro de 2016 a hotelaria ainda não tinha se tocado do que aconteceu, sabia sem saber, ou fingia não saber. Depois desse verão, eu posso te garantir que a hotelaria entendeu o prejuízo que está passando, devido aos aluguéis de temporada.  E não vai superar um segundo ano, um segundo verão como esse. Esse verão para mim foi o pior! A dezesseis anos que eu moro nessa cidade, esse foi o pior verão. A hotelaria não vai aguentar mais um ano assim. Fizemos uma cobrança, o poder público foi informado, eu pessoalmente entreguei um estudo detalhado quanto aos efeitos negativos disso tudo. Resta ver se eles vão ter coragem e capacidade de agir, mas, se eles não entenderem essa necessidade devemos nos preparar para uma mudança radical para o cenário do turismo em nosso destino, vai ser outro tipo de turismo. Mas é extremamente preocupante, não é pouco não! Tomara que os hoteleiros se unam nos próximos meses com ações de cobranças mais efetivas e eficientes contra o poder público.

A “comodidade” dos destinos turísticos

Luigi – Um destino não pode parar, você alcançar um auge um ponto importante que seja em uma empresa, ou seja, de um destino turístico é um trabalho muito difícil. Mas, permanecer é ainda mais complicado do que alcançar! E, realmente esse alcançar a notoriedade do destino Porto Seguro deixou o destino em uma “zona de conforto”, que hoje se virou esse elemento negativo.  Mas, acho que a própria mudança de cenário do turismo que precisa ser analisada, e os destinos demoram para analisar, demoram para reagir e, sem dúvida, Porto Seguro está numa fase de ter que repensar rapidamente a sua proposta turística, analisando não só a hotelaria , quanto a sua orla , as suas atividades, seus atrativos , sua preocupação com o meio ambiente e com a sustentabilidade que hoje são os elementos fundamentais para o turista. Ele quer ver que está num destino sustentável preocupados, então, existe um trabalho pesado para ser feito.

Você como presidente da ABR, acha que os outros hotéis e destinos estão vendo essa situação muito localizada somente em Porto Seguro?

Luigi – Pelo contrário, o Airbnb não é localizado. O Airbnb é um fenômeno mundial, é um fenômeno que ataca a todos os destinos, todos estão passando por isso. Alguns mais outros menos, repito: sofrem mais os destinos onde tiveram, já com antecedência, um maior número de condomínios destinados a casa de férias. Claramente que Salvador, Porto Seguro, Rio de janeiro, muita gente já tinha um apartamento a mais como apartamento de férias, então, o Airbnb paga mais. O terreno fértil para a Airbnb são as acomodações ociosas, uma cidade que não tem esse perfil de apartamentos não está sofrendo tanto , porque o Airbnb não pega por não ser seu terreno fértil para isso. Mas, todos os destinos turísticos que tiveram uma onda de construção de apartamentos, ou condomínios, para passar férias são alvos de aluguel de temporada.

Como o perfil do viajante mudou, qual é o impacto que isso trouxe para os destinos como Porto Seguro?

Luigi – O perfil do viajante mudou de forma geral, é preciso entender que ele tem outras características, outras necessidades. Ele é sem dúvida um perfil que procura mais liberdade de ação, eu acho que algo que interessa muito na hora do aluguel de temporada, é que ele não faz check in, não apresenta documento, entra e sai quando quiser. Alugou um apartamento quer receber amigos recebe, quer fazer um jantar em casa faz. E a hotelaria é extremamente rígida, temos uma série de leis e regulamentos: check in, documentos, passaporte, entrada, saída, horários etc… Então, essa rigidez da hotelaria contra essa flexibilidade do aluguel de temporada é um argumento de peso quando a escolha do viajante que prefere hoje a “liberdade” ou a “anarquia” do aluguel de temporada, comparada a de um hotel ou pousada. Ele também quer ser muito mais solto, hoje quer ir em um restaurante, amanhã numa praia ou comer em casa, ele não quer se sentir amarrado a regras. Existe sim uma forte mudança na forma de viajar, ele quer experimentar algo. E, se a experiencia não é fornecida na moradia ele quer vivenciar essa experiencia dentro do destino. No caso especifico de Porto Seguro, é um destino que perdeu um pouco a sua identidade. Mesmo essas críticas que muitas pessoas fazem quanto à musica de Axé, mas Axé é a alma de Porto Seguro! Não adianta achar que isso é um elemento negativo, porque só os jovens gostam, aliás, graças a Deus que gostam! Essa questão de descaracterizar o Axé pelo Sertanejo é um tiro no pé. Porque sertanejo você ouve em qualquer lugar do Brasil, e se você vem aqui e Porto Seguro para assistir a um show que você já tenha em sua cidade, você não está vivenciando uma experiencia nova. No lugar de copiar o que se faz no mundo, é preciso você ter coragem de defender o que você é!

Qual é a sua visão daqui para frente, o que realmente você acha que vai acontecer com os destinos sofrendo com a influência dos alugueis de temporada?

Luigi – Porto Seguro é um destino de muitos hotéis pequenos, e o pequeno hoteleiro muitas vezes está preocupado com o empreendimento dele, ele trabalha noite e dia, então, ele não tem muito tempo para se preocupar com o que está acontecendo em sua volta. Não porque não queira, mas porque precisa trabalhar. Hotelaria parece lazer, mas não é não. É lazer para os hospedes, não para o dono do empreendimento. Então, tem um pouco esse lado. Eu acho que por sermos um destino turístico, um dos primeiros do Brasil, desde sempre e não de agora, cabe ao poder público ser também um elemento   unificador dos interesses do turismo. Ele está esquecendo esse papel já faz tempo, está tentando exercer, mas, com pouca visão do que deve ser   o futuro. E, tomara que surjam outras formas de reagir contra esse fenômeno. Mas, algo deve ser feito, sem dúvida ficar de olho esperando que passe ou que se ajuste de forma automática não vai acontecer nada, a paisagem turística vai mudar, ela vai mudar drasticamente.

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